Nota do Mercado: Quando o movimento o tira o sono do mercado de colchões


Alta dos insumos e avanço das importações pressionam as fábricas

A indústria brasileira de colchões enfrenta uma combinação difícil: produzir ficou mais caro, enquanto a disputa pelo consumidor se intensificou. Entre janeiro e agosto de 2026, o custo de produção de colchões de molas e de espuma flexível de poliuretano aumentou, em média, 21,43% nas empresas pesquisadas pelo Observatório do Colchão. No mesmo período, o Brasil importou 297 mil colchões, somando US$ 18,4 milhões. Segundo levantamento com dados do Comex Stat, foram altas de 125% em unidades e de 92% em valor na comparação com os primeiros oito meses de 2025. A China respondeu por 97% das unidades e 93% do valor importado.

Para quem fabrica no país, esses movimentos tornam mais difícil fechar a conta. O aumento dos custos reduz a margem de cada venda, enquanto a concorrência limita o espaço para recuperá-la. Nas linhas de entrada, em que pequenas diferenças de preço podem decidir um pedido, essa pressão é particularmente forte.

Parte do problema começa nas matérias-primas. Segundo o Observatório do Colchão, os preços de aquisição de TDI e poliol, utilizados na fabricação das espumas de poliuretano, subiram, respectivamente, 15% e 22% entre janeiro e agosto nas empresas pesquisadas.

A pressão sobre os insumos ganhou força a partir de setembro e continua no início de outubro. Segundo informações reunidas pelo Observatório do Colchão, os novos aumentos são de 20% no poliol e de 10% no TDI. Esse movimento sucede as altas registradas entre janeiro e agosto e encarece novamente a fabricação das espumas de poliuretano. Ainda que o impacto no custo do colchão depende do modelo e da quantidade de espuma utilizada, para as fábricas, porém, a sequência de aumentos reduz ainda mais a capacidade de absorver despesas.

A fábrica também precisa pagar salários, energia, transporte, tributos e os custos de demonstrar que seus produtos atendem às exigências técnicas. Melhorias de produtividade ajudam a enfrentar essas despesas, mas não compensam indefinidamente o encarecimento da produção. Quando os custos deixam de caber no preço de venda, ficam comprometidos os recursos que mantêm a operação, os investimentos e os empregos.

É por esse caminho que a alta dos insumos pode chegar ao consumidor. Uma revisão de preços pode ser necessária para sustentar a produção, mesmo em um mercado de concorrência intensa. Não há, porém, uma relação automática entre a variação dos custos e o preço do colchão. Cada fabricante toma suas decisões comerciais de forma independente, considerando sua própria estrutura, seus contratos, estoques e condições de mercado.

O avanço das importações e a redução no número de fabricantes registrados na plataforma do Inmetro, observou-se uma redução de 23 unidades ativas no Prodcert em um ano, são indicadores distintos. Não demonstram, por si só, uma relação de causa e efeito. Ainda assim, reforçam a importância de acompanhar as condições de produção e de concorrência no mercado brasileiro.

Importados regulares fazem parte dessa concorrência. O problema surge quando produtos são comercializados sem cumprir as exigências aplicáveis, sejam eles nacionais ou estrangeiros. Nessa situação, o fabricante que investe em conformidade disputa espaço com quem deixa de arcar com obrigações que deveriam valer para todos. O Brasil exige certificação compulsória para os colchões de espuma e de molas abrangidos pela regulamentação do Inmetro. Ensaios, controle de qualidade e acompanhamento da produção fazem parte desse processo. São investimentos que nem sempre aparecem na comparação de preços, mas que sustentam a verificação dos requisitos técnicos exigidos para colocar o produto no mercado.

Quem compra vê o tecido, o acabamento e a apresentação comercial. Não consegue avaliar, apenas pela aparência, a composição interna e o desempenho dos materiais. Por isso, conferir o selo, verificar a regularidade do registro e identificar o fabricante ou importador são cuidados importantes. O consumidor tem o direito de saber o que está comprando e quem responde pelo produto.

Essa responsabilidade, contudo, não pode ficar apenas com o comprador. A cadeia de fornecimento precisa assegurar a regularidade do que oferece, e a fiscalização deve impedir que o descumprimento das regras se transforme em vantagem comercial. Denúncias documentadas precisam ser apuradas e infrações comprovadas, corrigidas e sancionadas pelas autoridades competentes.

Para o consumidor, um colchão diferente do anunciado pode significar desempenho insatisfatório, dificuldade para obter reparação e uma nova despesa antes do esperado. Para a indústria regular, significa disputar vendas em condições desiguais. Combater esse problema protege os dois lados.

Produzir no Brasil exige condições para investir, cumprir as regras e manter empregos. A pressão dos custos precisa ser compreendida nesse contexto. Não se pode esperar que a indústria absorva aumentos indefinidamente sem consequências para sua capacidade de continuar produzindo.

Valorizar o colchão nacional produzido em conformidade é reconhecer as empresas que assumem responsabilidade pelo que entregam. O preço precisa caber no orçamento, mas a escolha também deve considerar procedência, composição e desempenho. A economia só se confirma quando o colchão corresponde ao que foi prometido.