Circularidade, reciclagem, inovação e regulação avançam no mundo, mas as experiências internacionais mostram que transformar boas intenções em soluções viáveis continua sendo o maior desafio.
Charlotte, Carolina do Norte, Estados Unidos · 23 e 24 de setembro de 2026
A ABICOL acompanhou a ISPA Sustainability Conference 2026, encontro que reuniu fabricantes, fornecedores, recicladores, associações e especialistas. As discussões abordaram o ciclo de vida do colchão, desde o desenvolvimento e a escolha dos materiais até a logística, o reaproveitamento, a destinação final e a fiscalização.
Uma conclusão percorreu as apresentações: não existe um modelo único de circularidade que possa ser simplesmente transferido de um país para outro. Desempenho, custos, infraestrutura, disponibilidade de materiais, mercado comprador e regulação precisam entrar na mesma conta.
O desafio não é apenas fabricar um colchão tecnicamente reciclável. É garantir que, no fim da vida útil, existam coleta, tecnologia, escala, compradores para os materiais recuperados e condições econômicas para que tudo funcione.
O design de hoje define as possibilidades de amanhã
Workgroup on Circular Design • Kate Caddy (ISPA) e Ryan McMullan (Lean Green Way / Mattress Recycling Council)
O grupo de trabalho discutiu quatro frentes: projeto para desmontagem, materiais circulares, rotulagem e rastreabilidade digital e embalagens ao longo da cadeia. Um colchão precisa permanecer unido por muitos anos, mas, quando descartado, seus componentes precisam ser separados. A forma como espumas, tecidos, aço, adesivos e outros materiais são combinados pode facilitar ou inviabilizar a recuperação.
O debate não propôs sacrificar qualidade e segurança em nome da reciclagem. A orientação foi considerar a desmontagem quando houver alternativas tecnicamente equivalentes. No caso da rastreabilidade, prevaleceu uma pergunta anterior à escolha da tecnologia: que informação é necessária, para quem e com qual finalidade? Para embalagens, devem ser avaliados também transporte, retorno, operação e custo.
Adesivos: uma decisão pequena, efeitos de longo prazo
Breaking the Bond • Jim Turner, SABA North America
A SABA apresentou o desenvolvimento de um adesivo hot melt à base de polipropileno compatível com o tecido usado em molas ensacadas, buscando facilitar o tratamento do conjunto no fim da vida útil. Transformar a ideia em solução industrial levou quase três anos, pois era necessário atender também aos equipamentos, ao desempenho e ao custo.
Testes de reciclagem química de espuma mostraram ainda que diferentes adesivos podem interferir de maneiras distintas no processo. Uma alternativa de base biológica, por exemplo, não necessariamente apresenta o melhor resultado para determinada rota de reciclagem. A mensagem é clara: renovável não é sinônimo de reciclável, e reciclável não significa efetivamente reciclado. Foram discutidas também tecnologias para desfazer uniões adesivas, com possíveis contrapartidas técnicas e econômicas.
Circularidade precisa fazer sentido como negócio
Circularity That Competes • Nellie Cohen, Baleen Advisory Services
Com a experiência de implantação do programa Worn Wear, da Patagonia, Nellie Cohen mostrou a diferença entre manter uma iniciativa circular isolada e desenvolver um modelo de negócio capaz de gerar valor com produtos existentes, serviços, reparos, reutilização e outras formas de recuperação.
Isso não significa copiar a revenda de roupas para os colchões: o setor enfrenta volumetria, custos logísticos, exigências sanitárias e percepção do consumidor muito diferentes. A lição é começar com projetos-piloto, compreender custos e demanda e testar a viabilidade antes de ampliar a escala. A palestrante também diferenciou correlação de causalidade ao apresentar resultados de consumidores participantes de programas de reparo.
Regulação e fiscalização fazem parte da sustentabilidade
Sustainability Policy • Alison A. Keane, ISPA e Mattress Recycling Council
Nos Estados Unidos, a experiência com sistemas estaduais de responsabilidade pós-consumo mostra que aprovar uma obrigação é só o começo: alguém terá de coletar, transportar, processar, administrar, financiar e prestar contas. Obrigações simultâneas para colchões e embalagens exigem coordenação para evitar duplicidades.
A ISPA também destacou preocupações com produtos importados não conformes e com a fiscalização de vendas realizadas em plataformas digitais. Para o Brasil, a consequência é relevante: se novas exigências aumentam o custo de quem cumpre a lei sem alcançar produtos irregulares, criam-se distorções concorrenciais.
O que Austrália, Reino Unido e Europa estão fazendo
Sustainability Policy • Alison A. Keane, ISPA e Mattress Recycling Council
Austrália – O programa voluntário de responsabilidade pós-consumo enfrenta distâncias elevadas, alto custo logístico e o problema dos free riders — empresas que não contribuem para o sistema. Até o aço recuperado de colchões passou a encontrar dificuldades de comercialização em certas regiões. Há pesquisas para utilizar misturas de espuma e têxteis como isolamento e interesse em hotéis e compradores institucionais, que podem concentrar volumes.
Reino Unido – A National Bed Federation trabalha com princípios e ferramentas de ecodesign e pesquisa barreiras concretas à reutilização. Em parceria com a Manchester Metropolitan University, desenvolve um método de avaliação da limpeza microbiológica de componentes de colchões usados, avançando para uma etapa piloto. A experiência ilustra a importância de pesquisar e testar antes de transformar uma hipótese em exigência.
Europa – A regulamentação de ecodesign (ESPR) incluiu colchões entre os grupos prioritários de 2025–2030, mas não havia, em 2026, ato delegado específico nem Passaporte Digital obrigatório para colchões. Segundo a EBIA, o trabalho preparatório deve começar em 2027, com ato delegado previsto em torno de 2029. Ainda estão em discussão dados, níveis de acesso, atualização, interoperabilidade e proteção de informações comerciais.
Lição para o Brasil – Os três mercados demonstram que a infraestrutura disponível, a extensão territorial, a segurança dos materiais, a governança e a existência de compradores determinam caminhos diferentes. Acompanhá-los permite aprender com dificuldades já identificadas, sem antecipar a importação de regras ou modelos.
Comunicação, inovação e dados: do discurso à prática
Suzanne Shelton (ERM Shelton) apresentou pesquisas segundo as quais 82% dos compradores empresariais norte-americanos e 75% dos compradores pesquisados no Reino Unido e na União Europeia associam fortes compromissos ambientais a empresas bem administradas. Outro levantamento apontou que 83% dos compradores B2B dos EUA consideram sustentabilidade, em alguma medida, um critério de desempate. Isso não elimina o peso de preço, desempenho e qualidade, nem dispensa evidências que sustentem alegações ambientais.
Na sessão Breakthrough Thinking, Real Solutions, apresentações rápidas de inovações reforçaram que uma solução ambiental precisa funcionar na velocidade da linha, manter desempenho, ter fornecedores e custos viáveis e demonstrar benefícios.
Brendon Kim mostrou que a gestão de sustentabilidade pode começar por informações já disponíveis: compras, consumo de energia, materiais, fretes, perdas e resíduos. A maturidade dos dados pode evoluir de gastos para volumes e atividades, depois informações de fornecedores e, em estágios avançados, pegadas de produto e avaliações de ciclo de vida.
A atividade final, From Insight to Impact, reuniu as discussões em uma pergunta: o que pode ser feito agora? A resposta depende da coordenação entre fabricantes, fornecedores, recicladores, logística, mercado, informação e poder público.
O que deve entrar no radar da indústria brasileira
Produto e materiais
Mapear a desmontagem, estudar adesivos, compatibilidade entre componentes e alternativas recicladas ou renováveis sem comprometer desempenho.
Reciclagem e mercado
Acompanhar a reciclagem química de espumas e identificar aplicações e compradores para materiais recuperados, inclusive aço e têxteis.
Logística e responsabilidade
Avaliar distâncias, custos regionais, financiamento, governança e participação de todo o mercado nos sistemas pós-consumo.
Dados e rastreabilidade
Organizar informações já disponíveis nas fábricas e acompanhar o Passaporte Digital europeu sem antecipar obrigações ainda indefinidas.
Regulação e fiscalização
Defender requisitos exequíveis, baseados em evidências, e vigilância de mercado que alcance igualmente produtos nacionais e importados.
Pesquisa e testes
Trabalhar com fornecedores, universidades, laboratórios e recicladores para validar soluções antes de implantá-las em escala.
O que a ABICOL traz de Charlotte
A circularidade dos colchões está saindo do campo das intenções e entrando na realidade das operações. É nesse momento que surgem as perguntas difíceis: quem coleta, quem transporta, quem processa, quem compra os materiais recuperados e quem paga a conta?
A principal contribuição das experiências internacionais não é oferecer uma solução pronta ao Brasil, mas ajudar o setor a formular melhores decisões. O caminho observado nas discussões foi consistente: entender o problema, ouvir a cadeia, reunir dados, pesquisar, testar, medir resultados, corrigir e só então considerar a ampliação.
Quando houver tecnologia, logística, informação, escala e destino economicamente viável para os materiais, a circularidade deixará de ser apenas uma possibilidade e poderá funcionar na prática.
Adriana Pierini
Diretora Executiva da ABICOL
