ABICOL Connection #06 – Fabricantes e fornecedores abordam desafios, regulamentação e futuro do setor colchoeiro


No ABICOL Connection, Rogério Coelho e Gustavo Lemos analisam os efeitos da pandemia sobre o mercado, a evolução da regulamentação e os desafios de inovação, competitividade e geração de valor para o consumidor.

Os desafios atuais da indústria de colchões, os reflexos do crescimento das vendas durante a pandemia e a importância da regulamentação para a qualidade e a competitividade do setor estão entre os temas do novo episódio do ABICOL Connection.


Adriana Pierini recebe Rogério Coelho, da Orbhes Colchões, ex-presidente e membro fundador da ABICOL, e Gustavo Lemos, presidente da Leggett & Platt do Brasil, reunindo as perspectivas de um fabricante e de um fornecedor sobre as transformações do mercado.

Na avaliação dos convidados, parte do cenário atual ainda pode ser compreendida a partir do comportamento excepcional do consumo durante a pandemia. O aumento das vendas naquele período antecipou compras e alterou o ciclo de substituição dos colchões, contribuindo para um mercado que, nos anos seguintes, passou a trabalhar com volumes menores.

Gustavo observa que os impactos não ficaram restritos ao Brasil e avalia que a retomada das compras tende a acompanhar o próprio ciclo de substituição dos produtos. Rogério acrescenta outro fator a essa equação: à medida que a regulamentação elevou o padrão mínimo de qualidade dos colchões, os produtos passaram a durar mais e, consequentemente, o consumidor também pode levar mais tempo para substituí-los.

Regulamentação, durabilidade e diferenciação

Ao recuperar parte da história da regulamentação do setor, Rogério destaca que a criação de padrões mínimos de qualidade representou uma mudança importante para a indústria brasileira. Para ele, a função da norma não está apenas em estabelecer parâmetros técnicos, mas também em assegurar que o consumidor tenha acesso a produtos com desempenho e durabilidade compatíveis com aquilo que se espera de um colchão.

O ex-presidente da ABICOL chama atenção especialmente para o impacto dessa discussão sobre consumidores de menor renda. Segundo Rogério, um produto inicialmente mais barato pode acabar sendo proporcionalmente mais caro quando apresenta baixa durabilidade e precisa ser substituído em pouco tempo.

“As normas vêm, principalmente no meu ponto de vista, para proteger as camadas mais vulneráveis. Ele tem o direito de dormir num colchão decente, que dure aquilo que se espera que dure.” — Rogério Coelho

Rogério também relaciona a regulamentação à competitividade da indústria nacional. Na avaliação dele, ajustes técnicos que aumentem a durabilidade dos produtos podem contribuir para proteger a indústria brasileira ao estabelecer condições equivalentes de qualidade para quem participa do mercado.

Outro ponto de atenção é a crescente mecanização da produção. Rogério observa que, em mercados mais padronizados, a automação pode levar fabricantes a produzirem colchões cada vez mais semelhantes em formato, construção e características. Quando os produtos se aproximam demais, segundo ele, aumenta também a tendência de a competição migrar para o preço.

Para o fabricante, esse cenário reforça a importância de preservar espaço para diferenciação, novas experiências de conforto e inovação no desenvolvimento de produtos.

Tecnologia só faz sentido quando entrega valor

Gustavo também reconhece a regulamentação como um dos elementos que ajudaram a profissionalizar o mercado brasileiro e elevar o padrão de qualidade dos produtos. Ao mesmo tempo, defende que as exigências técnicas precisam acompanhar aquilo que efetivamente será percebido pelo consumidor.

Na visão do executivo, uma regulamentação excessivamente complexa pode aumentar custos e, em determinadas situações, dificultar a própria inovação. Por isso, a discussão sobre novos requisitos deve considerar não apenas o desempenho técnico em laboratório, mas também sua relação com o uso cotidiano do colchão.

“A gente precisa entender exatamente o que agrega valor. Fazer algo que vai aumentar custo e não vai agregar valor para o consumidor não faz muito sentido”, afirma.

Essa mesma lógica aparece quando Gustavo aborda as tecnologias utilizadas nos colchões. Durante a entrevista, ele explica que diferentes geometrias e sistemas de molas podem produzir respostas distintas em conforto, movimentação e individualidade, mas ressalta que o consumidor não está interessado apenas na tecnologia por si só.

“O consumidor quer saber se a mola é boa, se a espuma é boa, se o colchão é bom, se vai durar, mas ele quer saber também se vai ter uma noite de sono melhor.” — Gustavo Lemos

Para ele, esse é um dos principais desafios de fabricantes, fornecedores e do próprio setor: transformar características técnicas em benefícios claros. Gustavo resume essa perspectiva ao dizer que a indústria precisa ir além do “foco no cliente” e compreender o foco do cliente: dormir bem, ter uma boa noite de sono e contar com um produto que apresente boa durabilidade.

A discussão se estende à competitividade da indústria brasileira. Gustavo avalia que os fabricantes nacionais desenvolveram grande eficiência produtiva e capacidade de entregar produtos de qualidade em um ambiente marcado por forte pressão sobre custos. Segundo ele, essa característica contribuiu até agora para dificultar uma entrada mais expressiva de produtos estrangeiros no mercado nacional, embora o setor precise permanecer atento às mudanças internacionais.

Um mercado que ainda terá de se transformar

Na parte final da conversa, os convidados reconhecem que o mercado atravessa um período desafiador. Gustavo cita juros elevados, retração das vendas e mudanças tributárias entre os fatores que pressionam as empresas no curto prazo.

Ao olhar para os próximos anos, porém, sustentabilidade, reciclagem e inovação aparecem como movimentos que deverão ganhar cada vez mais espaço. Rogério considera que a preocupação ambiental representa uma trajetória sem volta para a indústria, enquanto Gustavo também aponta a reciclagem como um tema que tende a ocupar posição crescente na agenda do setor.

Mais do que responder ao cenário atual apenas com redução de custos, a conversa entre fabricante e fornecedor aponta para outro desafio: encontrar caminhos para melhorar produtos, comunicar seus diferenciais e manter a capacidade de inovar em um mercado no qual qualidade, eficiência e valor percebido estarão cada vez mais conectados.

O episódio completo do ABICOL Connection está disponível nos canais da ABICOL.

As opiniões, análises e informações apresentadas pelos convidados neste episódio são de sua exclusiva responsabilidade e não representam, necessariamente, o posicionamento institucional da ABICOL. A participação no ABICOL Connection não implica endosso, recomendação ou validação, pela Associação, das opiniões ou práticas mencionadas.